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10.9.05 13:25 5v

Um dia

Foi acordado com o grito do celular, clamando por atenção. Entre irritado e conformado, foi atender e viu a hora. Cinco da manhã.

- O que?

Mas já sabia sobre o que era: a carga chegava naquela madrugada e tinha deixado ordens claras para ligarem e o acordarem caso houvesse algum problema. Nenhum deles com certeza ligaria em vão: sabiam bem o humor dele e as conseqüências de uma comunicação sem valor. Mas, para sua surpresa, a voz do outro lado da linha falava em espanhol, reclamando que não era aquele o valor acertado anteriormente.

"Que belo começo de dia", pensou, após resolver rapidamente o problema, acalmando seu fornecedor com o valor que ele reclamava - depois dando ordens aos seus para que todos os que tiveram contato com a carga, incluindo o fornecedor espanhol, fossem mortos.

Lembra-se de, rapidamente, ver um relógio marcando seis da manhã quando o mais novo problema chegou. Já estava vestido e quase pronto para sair quando o celular novamente tocou.

- Fale.

O problema agora era com um de seus locais de entretenimento. Aparentemente, uma das "acompanhantes" não voltou após sair com um rico empresário coreano. Irritado por ser interrompido com um problema cotidiano, disse que tomaria providências. Ligou para o segundo homem em comando daquela divisão, mandou que matasse o superior, assumisse a operação e tomasse as providências necessárias.

"Incrível a incompetência... e eu os treinei tão bem". Mas sabia que não era verdade: se realmente os treinasse bem, teria pessoas querendo seu próprio posto. Eles eram bucha de canhão, eram substituíveis, assim era mais fácil de lidar com eles. Criou problema? Morto. Pronto, problema resolvido: havia uma longa fila de interessados na vaga, todos péssimos, mas completamente descartáveis. A morte não o assustava mais.

Já passava das oito horas quando conseguiu abrir uma nova frente: os vereadores que pagava mensalmente conseguiram derrubar o vereador que cobria as ações de seu concorrente. Agora era uma questão de tempo até ele conseguir ampliar seu conglomerado - talvez toda a cidade pudesse estar em suas mãos até o final do ano.

Por volta das dez horas ele soube que a nova carga de brinquedos, jogos e programas piratas estava no mercado e rendendo muito. Apesar disso, diariamente ele pensava em abandonar essa divisão e só não fazia por medo que, crescendo nas sobras do que ele desprezava, nascesse um rival. Mas a concorrência era grande nessa área e os lucros, geralmente, pequenos. Em breve poderia não valer mais a pena.

Já estava pensando no almoço e ainda faltavam vinte minutos para o meio-dia. De qualquer forma, foi para a rua, buscar algo para comer. Embora tivesse um número de celular muito conhecido, seu rosto não havia sido visto por quase ninguém que trabalhava com ele. Dava ordens, pagava coisas, mas ninguém - ou quase - o via realmente. E parte do disfarce era agir como se fosse uma pessoa comum, sem toda a grana que tinha, para não chamar tanta atenção.

Alguém poderia dizer: de que vale, então, todo o trabalho? Se não pode ser desfrutado? Mas ele desfrutava: viajava constantemente para fora do país, de vez em quando aparecia em festas as mais badaladas e já teve algumas das mulheres mais lindas do mundo, porém, não precisava viver diariamente assim. Mudava-se constantemente, sem fixar residência em canto algum e ele considerava isso ótimo. Impedia-o de acumular coisas desnecessárias e mantinha o fluxo, no ritmo das coisas que mudam constantemente, como em seus negócios.

Pegou o carro e foi para o restaurante - um dos melhores da região, mas nada extremamente luxuoso. Quando estava apenas um quarteirão distante, aconteceu. Não sabe como, talvez no momento tenha piscado os olhos, talvez tenha apagado por alguns segundos, mas sabe que o que viu estará em sua mente para sempre.

Oh, sim, ele sabe que vai viver, mesmo deitado no asfalto, sangrando, sem conseguir falar, com tanta dor que não saberia dizer exatamente que parte do corpo dói. Mas ele sabe que vai viver.

Pois era isso que eles queriam. « Voltar para 5v | | Criar um link | Deixe um comentário »


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2000-2012 Fernando da Silva Trevisan