A DESCOBERTA
Rodrigo ajoelhou-se, uma gota de frio suor escorrendo no rosto. Juntou as mãos naquele que, suspeitava, era um gesto que ninguém mais repetia em todo o mundo. Fechou os olhos - embora não soubesse se era assim que os antigos faziam, imaginava que sim. Como falar com alguém superior, como falar com um ser que a tudo criou em mistério, que durante os séculos de triunfo e dominação humana, mantinha baixado o véu sobre nossa origem e destino?
A "teoria de tudo" que nunca foi conseguida frustrou cientistas primeiro, governos depois e população por fim. Centenas de anos e ninguém ainda conseguia entender como relacionar e unificar a mecânica quântica com a relatividade. Porém, no rastro de pesquisas frustradas, descobertas úteis: materiais novos, sintetização de elementros biológicos... o ser humano havia dobrado e desdobrado a criação, mas ainda não conseguia dominá-la, apenas manipulá-la. Hoje, até as piadas sobre as falhas dos cientistas já eram história. Dizia-se: política, futebol, mulher e a teoria de tudo não se discute.
Baixinho, como se não quisesse ser ouvido - na realidade sabendo que seria ouvido mesmo que nada dissesse - Rodrigo rezava. O próprio termo havia sumido junto com as religiões, que agora constavam apenas em livros de história. As crianças estudavam-nas e sabiam que elas cumpriram papel importante na evolução humana, criando comunidades onde antes haveria apenas brutais disputas de poder. Dando sentido e continuidade a um grupo outrora sem nada que o identificasse, porém, ao mesmo tempo, sendo cada dia mais culpadas por guerras, sacrifícios, terrorismo... no final das contas, por mortes.
Após rezar, Rodrigo orava. Pedia a Deusalá que trouxesse o nirvana, que não permitisse à raça humana chegar ao apocalipse da unificação, ao fim de tudo. O arrebatamento não era próximo, como previam os escritos mais antigos que ele encontrara, mas queria acreditar que ainda viria - e que ele estaria entre os escolhidos - se não fosse o único dessa geração tão tecnológica e esquecida do passado.
Ao terminar, Rodrigo cuidava de retirar os pesados tapetes e cortinas que distribuía por sua acomodação, a fim de prevenir câmeras e escutas - ilegais porém comuns. O estado inexistia na forma como havia existido nos tempos dos antigos, mas as corporações não relaxavam a vigilância de seus comandados. Suspirou, sabendo que aquele seria mais um dia tenso na Biblioteca Universal, com o contrabando de itens proibidos aumentando, sua função ficava cada dia mais sob vigilância. Para piorar, estava ele mesmo contrabandeando e lendo às escondidas os livros religiosos dos antigos - as várias "Bíblias", o Alcorão, livros sobre o Buda.
Indo para seu cubículo de trabalho em sua acomodação, pensou que deveria dobrar o cuidado com seus acessos. Refletia se era mais seguro copiar as obras ou apenas acessá-las para leitura. Se não copiasse, poderia argumentar que apenas desejava estudar - caso fosse pego com cópias, seria certamente indiciado contrabandista. Seu terminal de trabalho já estava acordado da hibernação que o tomava toda noite - era para impedir as temidas horas-extras que os patrões não permitiam aos terminais continuarem funcionando após a jobhour de trabalho. Uma mensagem o aguardava:
"Bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal". Estava assinado: "Enos".
Ficou olhando a tela por longos minutos refletindo sobre a mensagem, sobre a assinatura. Enos, o filho de Set, neto de Adão e Eva. Aquele que iniciou a invocação do nome de Deus. Resolveu rastrear a mensagem, afinal, era um consultor de tech-security, pago para rastrear e resguardar os arquivos proibidos da Biblioteca Universal. Colocando seu programa verificador-automático para funcionar, a fim de enganar os patrões de que estava trabalhando, começou a pesquisar a mensagem.
Quatro horas depois, a frustração o dominava. Não apenas não conseguia rastrear a mensagem como havia descoberto um padrão, algo emergente por trás dos diversos nós e servidores utilizados para despistar, que não conseguia decifrar. Precisava parar e fazer algum trabalho de verdade ou em breve seria pego pelos fiscais. Contra sua vontade, parou a busca e "trabalhou" até o final da jobhour, especialmente cobrindo seus rastros. Quando o alívio do dia de trabalho estava para acabar deparou-se com algo estranho: mais alguém não autorizado havia acessado um dos livros proibidos - e justamente a Bíblia.
Não podia ser coincidência. Resolveu separar esses dados para o terminal doméstico em sua acomodação - era, obviamente, proibido de copiar e enviar dados da rede da B.U. para outras redes porém, sendo quem era e no cargo em que estava, não era difícil driblar os mecanismos que conhecia tão bem. Depois, poderia comparar com os dados da busca por Enos que também estava copiando, a fim de verificar se o padrão que suspeitara realmente existia. Não deixava de sentir uma emoção primitiva, que jamais havia sentido, neste ato ilegal de cópia e de procura. Até o momento, havia utilizado apenas o terminal de trabalho para suas leituras. Agora, havia como rastreá-lo até sua casa, ou assim acreditava. Por melhor que fosse, sabia que devia existir alguém melhor. Na realidade, Enos era melhor.
RECONHECENDO O PADRÃO
Durante dois longos dias Rodrigo apenas trabalhou, buscou Enos e seu padrão e fez suas preces. Na empolgação, quase esquecia as preces ou a sleephour, uma coisa influenciando na outra. Tinha decidido não responder, simplesmente, a mensagem - até por que seria impossível - a conta de envio não existia, tinha sido criada e deletada, apenas para enviar-lhe a mensagem. Consultou os logs do servidor e viu que a operação toda não havia durado nem sete minutos. Tinha certeza que a única forma de responder a mensagem seria encontrando o padrão, decifrando-o.
Ao final do segundo dia após receber a mensagem, ele estava cansado. Olhava a tela e seu cérebro dizia: aqui existe um padrão, está quase. Mas não vinha. Decidiu deitar no divã que tinha na sala e descansar. Sabia que seu servorobot avisaria se ele adormecesse ali além da sleephour e portanto, deitou-se, com os nós, servidores, endereços IPv10 e mensagens bíblicas brincando em sua mente, tentando encaixar o padrão de que precisava para a resposta. Dormiu.
Acordou exatos dois minutos antes do servorobot ativar os procedimentos para despertá-lo. Levantou-se sorrindo e correu ao terminal da acomodação, sabendo exatamente onde procurar. É claro, a resposta lhe viera em sonhos, como as revelações que eram dadas aos antigos pelo Senhor. Teclou até obter uma visualização da rede de servidores da área que, há centenas de anos, era chamada de Israel. Começou por eliminar os servidores de grande atividade e os públicos - seriam apenas despiste. Ele sabia que Enos estaria em algum servidor aparentemente inativo - mas que, na realidade, era ativíssimo, distraindo suas ações por meio de conexões "ping" para outros servidores - ignoradas pela listagem de tráfego.
Conforme ia aplicando os filtros, sentia o suor na fronte e o cansaço dos dias de busca. Em nenhum momento duvidou da mensagem "recebida", nem pensou que poderia haver explicações "científicas" para seu cérebro ter encontrado o padrão quando ele estava em repouso, disfarçando esse resultado como mensagem divina devido aos seus estudos e inclinações. Portanto, quando ficaram apenas 10 servidores na tela, todos aparentemente inativos, ele apontou, sem duvidar de si por um momento sequer, para o MirabilLis, localizado em Israel, que tinha como proprietário eterno VardiGoldfingerVigiserAmir. Não conhecia um nome deste quilate nem nos antigos, porém não duvidou que fosse de algum profeta ou enviado sobre o qual não houvesse lido ainda.
Imediatamente, iniciou os procedimentos para invadir o servidor. O trabalho ali foi relativamente fácil e ele teve um momento de dúvida: tanta dificuldade para chegar e agora aquela facilidade? Mas, assim que começou a listar diretórios e arquivos do servidor, entendeu. Havia apenas um arquivo fora do lugar com o nome joao8_8.txt, vazio. Sabia que a resposta deveria ser escrita ali, mas não tinha acesso à Bíblia para poder consultar o trecho e ficou forçando a memória em busca do que significava, com o arquivo aberto em tela. Enquanto pensava, o sistema avisou que o arquivo havia sido modificado por outro usuário e se ele queria carregar a alteração ou salvar o arquivo na condição atual. Optou por carregar a alteração:
"Inclinando-se novamente, escrevia na terra."
E então lembrou-se: era a passagem da adúltera, que estava para ser apedrejada e o Cristo a perdoava, depois que todos desistiam de apedrejá-la por terem, eles mesmos, diversos pecados. E o que isso queria dizer? Seria Enos uma espécie de "super-fiscal", que havia pego meus estudos mas perdoado? Ou seria um grupo de pessoas que se encontravam escondidos, liam e estudavam religião? Decidiu não se apegar a esses detalhes e responder:
"Ai daqueles que copiam o Livro, (alterando-o) com as suas mãos, e então dizem: Isto emana de Deus, para negociá-lo a vil preço. Ai deles, pelo que as suas mãos escreveram! E ai deles, pelo que lucraram!"
Alterou o nome do arquivo para 2_79.txt e aguardou. Veria, agora, com que tipo de gente é que ele estava lidando.
(continua...)
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Estou acordada, sei disso por que estou de olhos abertos e consciente. Ok, pode ser um sonho, mas e daí? Se for, não vai fazer a menor diferença para a minha condição atual. Então, acordada. Em um lugar estranho. Sem me levantar, olho ao redor e a decoração é padrão, sintética, plástica. Algo feito para agradar a todos, aos comuns. De alguma forma, não me agrada. Não me sinto comum.
Devagar, melhor ir bem devagar. "Se você não sabe o que está acontecendo, não se mova muito. Não fique por aí andando e olhando e parecendo confusa. Está tudo bem, sempre, lembre-se disso!". Eu lembro, mas e daí? Quem me disse isso? Quando? Alguma coisa está muito errada. Como eu posso ter qualquer controle se nem lembro quem disse o quê e nem quando?
Perguntas demais, melhor ver se consigo respostas. Os quadros na parede, natureza morta. A cama é cheia de cobertores e lençóis, macia demais. Dormi sobre todos os cobertores. Vestida, posso perceber agora. Roupas estranhas. Saia vermelha, uma faixa preta cobrindo e apertando meus seios mas deixando minha barriga de fora. Meias até os joelhos, brancas, tênis vermelho. Que tipo de gente se veste assim? Eu?
Quem sou eu?
Então me assusto e isso me faz levantar, sentar na cama. Não é só por não saber quem sou eu. Sei que sei quem sou, minhas células sabem, em alguma parte profunda do meu cérebro minha identidade persiste. Ela está escondida, mas algo me diz que vai voltar. É triste e assustador de certa forma, mas não me preocupo com isso. Melhor me preocupar com a arma, essa perto da minha mão, que foi o que me assustou.
É uma 9mm, eu sei. Não me pergunte como, mas eu sei. Ela é antiga, não sabia que ainda existiam, que era possível ter uma. Para minha surpresa, sei manusear. Está carregada. Merda, o que é que está acontecendo? Olho em volta de novo: é um quarto de hotel. A falta de visores revela muito, deve ser um hotel orbital, em alguma colônia espacial. E este é um quarto "classe baixa", no interior da estação, sem janela para a noite eterna.
Melhor se mexer, apesar do conselho maluco na minha cabeça. Algum outro conselho que não consigo recuperar me diz que ficar parada não é o melhor, um instinto, algo tão básico como fome ou sede. Pulo da cama silenciosamente - a forma como eu me movo é estranha. Um espelho na porta aberta de um armário permite me encarar: olhos azuis; os cabelos negros, desgrenhados, pelos ombros; o corpo forte nas roupas estranhas. Minha mão empunha a arma e isso é mais natural do que deveria. O que não é natural é essa tatuagem nas costas da minha mão:
PROJETONENOGENESIS
Olho para aquilo com descrença: é um sonho. Só pode ser. Vou andando pelo quarto observando a tatuagem, quando ouço um som. A porta? Me escondo rapidamente - a porta se abre - mas como? Ela é programada para o padrão genético. Além de altura, peso, temperatura, os sensores avaliam sua retina e, com o toque do seu polegar na fechadura, seu DNA e sua digital. A porta não deveria abrir. E eu não deveria entrar por ela.
Mas é o que acontece. Me vejo entrar, silenciosamente e com os mesmos movimentos graciosos que me vi fazer pelo espelho. Eu me vejo, aponto e atiro. Laser, reflete no espelho e me fere. Não a mim, a outra eu. Sei que foi um golpe de sorte. Meu reflexo me confundiu, mas não vou cair no mesmo truque duas vezes e não vou me dar uma segunda chance. Seja o que for que esteja acontecendo, sei disso e reconheço a chance que tenho. Acerto um chute em mim mesma - covardemente enquanto estou caída - e fujo.
Não dá para dizer quanto tempo faz que saí do hotel. O engraçado com as armas antigas é que elas não deveriam existir, então os robôs não estão programados para olhar por elas. Andei e corri por meia cidade sem ser notada pelos robôs. A desgraçada também. Deve ter alguma autorização especial. Ou roubado uma.
Já as pessoas... claro, com essas roupas, o que mais elas poderiam fazer, além de me notar? Mas não dá para parar e refletir. Parar e roubar outras roupas, mais adequadas. Ela sempre sabe o que faço, sempre prevê minhas ações. Tenho que ficar um passo adiante, mas sei que mais cedo ou mais tarde vou vacilar. Vou ser eu mesma.
Na saída do hotel já cometi alguns erros, que quase resultaram na minha morte. Subir, ao invés de descer. Tentar entrar no poço do elevador gravitacional, apesar de todo o risco. Ela previu, mas o poço gravitacional afetou a mira dela. Sorte?
Ao mesmo tempo comecei a prevê-la, também. Afinal, ela sou eu. E eu sei o que faria. Ou deveria saber, já que não sei quem sou. Então, estou agindo por instinto, mas o jogo começa a ficar confuso conforme me canso, meu cérebro já não reage com tanta rapidez, a situação é inusitada demais para ele aguentar. Sem memória, perseguida por mim mesma, nestas roupas esquisitas.
Então estou no museu, sei que ela está entre a multidão de adolescentes logo atrás, roupas pretas largas, mas presa por faixas e costuras em pontos estratégicos que facilitam seus movimentos. Ela é praticamente invisível em locais escuros, com essa roupa, e a maldita ainda é silenciosa. Mas ela está lá e me deixa vê-la de relance entre a multidão, em alguns momentos. Maldita.
Cansada, resolvo que é hora de trucar. Seja lá o que isso for, a idéia vem como um sorriso irônico na minha cabeça. Eu a vi, de relance, perto da exposição sobre veículos antigos. Sobre combustíveis fósseis. Aquilo é gasolina, de verdade. Em um tonel de metal. Eu atiro. Truco!
A explosão no museu afetou muita gente, não apenas a desgraçada. Mas a afetou, sei disso pois consegui fugir e me esconder. Ela previu isso, mas não pode prever ONDE estou escondida. Aliás, ela deve ter seus próprios problemas, agora. Apesar das roupas, os robôs me viram atirar. Isto é, eles a viram atirar. Quem é ela? Quem sou eu? Será que os robôs conseguem discernir? Será que os robôs, aliás, não notaram a anomalia? Duas iguais? Ou será que ela tem uma autorização tão forte assim, que a faz ser invisível aos robôs? Será que isso existe?
São perguntas demais para pouco tempo. Não vou conseguir resposta para a maioria delas, mas preciso saber quem sou. Que droga é esse nenogenesis. E por que eu estou me perseguindo. Se é que sou eu. Não pode ser clone, eles foram proibidos em algum lugar do passado. Não pode, então deve ser um robô. O que explicaria a invisibilidade aos outros robôs. Mas por que? Que sentido há em ter um andróide meu? Querendo me matar, ainda? Só posso saber disso sabendo quem sou. Chegando a nenogenesis que, segundo o módulo de acesso à rede deste apartamento, é uma prisão.
Então eu era uma presidiária? É difícil ser um presidiário, ao que consigo me lembrar. Os crimes que são puníveis com prisão são muito graves. Mas nenogenesis anuncia-se como uma prisão diferente. Algo sobre socialização e recuperação, mas extremamente vago. Eles não se importam em dizer para a sociedade exatamente o que fazem com os indesejados. A sociedade também não deve se importar muito com o que acontece com eles. Conosco.
Saber que a prisão fica nesta colônia me surpreende por momentos, até eu perceber que tem lógica. Devo ter fugido. Então é básico estar perto da prisão. E o robô - tenho quase certeza de que é um robô, um andróide me perseguindo - deve ser eu mesma justamente para facilitar a perseguição. Ao mesmo tempo, a falta de outras equipes e grupos me perseguindo deve ser precaução. Não deve ser bom ter uma fuga no currículo. E como eu fugi? Não importa. Tenho que voltar para lá. Descobrir quem sou. O que fiz.
Ir até nenogenesis vai me jogar direitinho na mira dela, mas não tenho escolha. Então saio do apartamento que invadi, vestindo roupas comuns roubadas, deixando mãe e filha presas no banheiro, desacordadas, amarradas. Elas vão viver e não há tempo para gentilezas.
Achar nenogenesis foi fácil, chegar até ela depois da confusão no museu, nem tanto. O difícil mesmo vai ser entrar. Mas se eu saí isso significa que devem haver brechas. O que eu faria "normalmente" seria me estabelecer perto da prisão e investigá-la, mas a outra estará esperando isso. Então, é hora de trucar novamente.
Convenientemente, a prisão situa-se em uma região industrial. Habitada apenas pelos robôs, assim a sociedade realmente não precisa se lembrar daqueles que "deram errado". Não há segurança fora das fábricas, dentro delas robôs e equipamentos internos automatizados garantem que nada saia do normal. As indústrias são outra parte da sociedade marginalizada e nenhum ser humano trabalha nelas - aliás, fomos proibidos disso há pelo menos 50 anos.
Eu quase consigo ver a outra vasculhando o perímetro da prisão de tempos em tempos, verificando corredores, ruelas, espaços vagos para delimitação das fábricas, me procurando. Ela sabe que tenho apenas duas formas de entrar: ar ou subterrâneo. Por ar é impossível devido a minha falta de recursos, além do que é espalhafatoso demais, não é meu estilo. Os corredores de energia e conexões de dados são mais óbvios, mais práticos e neste exato momento devem estar infestados de robôs.
Então resta o truco. A fábrica mais próxima da entrada da prisão fica a cerca de 300 metros dela. Das ruelas ao redor, consigo ver os robôs vigiando a entrada e todo o perímetro, guardando a prisão sem muros de forma inexorável. É impossível passar por eles. Mas eles são apenas robôs - eu sou mais esperta.
Então, quando eu a vejo circulando pelo perímetro, sentindo-se garantida pela proteção dos robôs, eu miro cuidadosamente e atiro. Não nela, mas no visor externo da fábrica - algo feito por uma nostalgia estranha ou por um comodismo arquitetônico inexplicável. Elas poderiam ser praticamente fechadas à vácuo que não faria diferença aos robôs trabalhando lá dentro, mas a pessoa que projetou os prédios deve ter pensado que era simplesmente errado um prédio sem janelas. Sorte a minha.
O tiro explode a janela e a assusta, creio mesmo que fragmentos a atingem, mas ela reage quase imediatamente, se abaixando, rolando no chão e olhando na direção de onde acha que veio o tiro, me vendo. Os robôs da prisão, como eu esperava, dividem-se em dois times: um para sair e verificar e outro para guardar o perímetro. Os robôs da fábrica saem, para defender a construção que acaba de ser violada - também devem ter dividido-se em dois times.
Metade do truco deu certo, é hora de continuar. Enquanto os robôs da fábrica ainda não têm certeza de qual é o alvo e os da prisão não têm alcance para atirar, corro na direção de minha cópia, me colocando entre ela e os robôs da prisão e atiro, acertando seu braço.
Não consigo ver se é robótico ou de verdade. Não presto atenção nisso, propositalmente.
Ela responde com um tiro equivocado de laser, que atinge um dos robôs da prisão, que rapidamente ajustam seus sensores de alvo e dividem-se novamente em dois times - um para mim, outro para ela. Melhor, agora eu tenho apenas três robôs para lidar, ela idem. Mas ela está avariada, eu não. E ainda tenho cinco tiros - um deles desperdiçado e outros três certeiros.
Os robôs dela também caem, após alguns disparos de laser, mas aí já estou longe do alcance de tiro dela, correndo ao redor do perímetro da prisão. Os robôs que sobraram para proteger a construção se reprogramam com a queda das outras unidades, separando-se mais. Dentro da prisão, o barulho de luta alerta alguém. Há barulho lá dentro mas eu não sei o que está acontecendo.
E então de alguma forma tudo pára, menos os robôs da fábrica, que continuam vigiando o perímetro e reconstruindo a janela quebrada. Minha cópia está parada me encarando, os robôs da prisão voltam para o perímetro, como que esquecidos de mim. Eu paro de correr, reconhecendo tanto a impossibilidade da missão a que me propus como a situação inusitada. O que houve?
Minha cópia joga a arma no chão e se aproxima lentamente. Ela sabe que eu tenho ainda um tiro. Eu também sei. Ela sangra. Ela é humana - não pode ser. É um andróide avançado. Eu levanto a arma e aponto, mas ela continua avançando, caminhando, devagar.
- Pare, robô. Ou vou destruí-la.
Ela continua. E fala.
- Não sou robô.
- Andróide, que seja. Por mais avançado, é apenas um robô.
- Não. Nem andróide. Nem robô. Eu sou real. Você é apenas um programa avançado, criado para me treinar. Eu sou uma policial. Estou sendo treinada e você é meu treinamento final, a última fase, tenho que prender você e então estarei livre. Serei uma policial e poderei viver minha vida. Basta que eu a prenda, novamente.
- Você é realmente um andróide avançado, com toda essa filosofia. Mas o que acontece se eu puxar o gatilho e espalhar seu cérebro pelo chão?
- Você não vai acertar. E, mesmo que tente, um dos robôs da prisão vai impedir. Não vê como estou próxima ao perímetro? Eles se lançarão na minha frente, impedindo seu tiro. Você perdeu.
A arma vacila e eu sinto a carga de tudo que tenho vivido. Não saber quem é, acordar sozinha, em um hotel espacial, com a arma. As perseguições. As buscas. As pessoas inocentes mortas.
- Baixe a arma. Deixe-me finalizar isso como deve ser. Deixe-me prendê-la e terminar com isso de uma vez. Você matou inocentes. Aterrorizou e usou pessoas na sua busca.
- Não sei quem sou, ainda. Eu vou descobrir.
- Você é minha última missão de treinamento. E só. Um programa, um software. Pense! Como é que você tem essa arma? Como é que sabe usá-la? Conveniente acordar num hotel com ela, não é mesmo? E ter memórias minhas. Selecionadas, creio, apenas trechos e determinadas partes do meu treinamento. Para prever minhas ações, me antecipar, ter uma chance a mais de vitória. Mas por que acha que não tem identidade? Nome? Idade? É apenas um personagem, em um mundo virtual, em uma luta que você já perdeu. Não vai conseguir entrar. Não vai conseguir passar pelos robôs, mesmo que conseguisse me acertar com seu último tiro. Se eu morrer, o programa termina e você cessa de existir. De uma forma ou de outra!
Ela está próxima de mim, agora. Ainda não pode alcançar-me, mas em poucos momentos fará isso.
- Então você, eu, tem que me prender. Se prender. Vencer a si mesma. Não é?
- Eu já venci.
- Então, por que o jogo não acabou? Por que o mundo virtual não foi desfeito e você acordada e parabenizada? Por que ainda estamos aqui...? Você sabe, tão bem quanto eu. Ainda tenho uma bala, não é mesmo?
Sem hesitar, aponto a arma para minha própria cabeça e puxo o gatilho.
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O texto acima foi escrito como parte do "Projeto Plot", capitaneado pelo Charles Dias na lista do Clube de Leitores de Ficção Científica - do qual vim a saber devido ao meu envolvimento com o pessoal da Intempol. Aliás, esperem muito mais FC nos próximos meses por aqui...
O plot que recebi, originalmente bolado por Joshua Falken, era: "Uma mulher acorda sem memoria num quarto de hotel numa colonia espacial, apenas com as roupas e uma arma. A unica pista é a tatuagem no braço: Projeto Nenogenesis. Enquanto tenta descobrir quem é, ela tem que evitar ser morta por uma mulher de preto, identica a ela."
Mantive o nome "nenogenesis", embora pense que tenha sido um erro de digitação - achei que casaria bem como nome-fake-de-game para o projeto de renovação de prisioneiros. Acho que o plot amplo mais a limitação de 3.000 palavras no máximo (o conto ficou com mais de 2.500) prejudicaram um pouco e não fiquei plenamente satisfeito com o resultado final.
Mas, pensando que foi produzido em coisa de 3h (incluindo a revisão), acho que ficou bastante passável, um bom texto para retomar meus escritos há tanto tempo "abandonados". Mas, por favor, sinta-se livre para comentar, criticar, malhar o judas e por aí vai.
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